Jornal de Negócios

17 outubro 2011

Levar na cabeça

JPP, no abrupto
«O martelo-pilão abateu-se outra vez sobre os portugueses sob a forma habitual, impostos, aumentos de preços e reduções de salários.

De cada vez que se espera que seja a última, há sempre mais uma. Por isso, a coisa mais fácil de vaticinar é que esta não será a última, e se calhar nem será a mais gravosa.

Não só muitas marteladas estarão escondidas no que ainda se desconhece no Orçamento, como se está a caminhar para um ciclo de muito difícil saída.

O que de mais gravoso o primeiro-ministro escondeu na sua declaração, mas que o seu ministro das Finanças está a dizer sob reserva aos partidos, é que uma parte do descalabro orçamental deste ano e do previsível para o ano já não vem dos "buracos", mas da quebra de receitas do Estado, que torna o aumento dos impostos em grande parte ineficaz.

Ou seja, estamos a entrar num ciclo vicioso que se pode aguentar um ano ou dois e, em seguida, ficamos "gregos".» (...)

«Dito isto, a única margem de manobra previsível será ter cumprido a nossa parte de um acordo que nem é bom, nem virtuoso, mas que nos dá um espaço de sobrevivência e, se for cumprido, um espaço de negociação. Esse espaço não depende só de Portugal, mas aí é que se vai ver o que o Governo pensa e propõe sem ser em estado de absoluta necessidade. Só de necessidade.» (...)

Para as famílias o corte é "3/3"

Num blogue aqui ao lado e no Diário Económico:

Bagão Félix, ex-ministro das finanças prevê que os cortes de ordenado serão definitivos

(Pergunta - "Não acredita que seja transitório?" Resposta - "Não acredito, é como quando se anuncia um último aumento de impostos. É sempre o último antes do seguinte.") e que, para as famílias, o corte é sempre a somar - «'dois terços do lado da despesa/um terço do lado da receita' é verdade formalmente, mas são três terços do lado do rendimento disponível das famílias. Porque tanto faz aumentar impostos como diminuir prestações e vencimentos.»

16 outubro 2011

há turmas quase inteiras que saem do país por falta de emprego

«"Há quase tantas faculdades de Medicina Dentária [em Portugal] como no Reino Unido [que tem uma população] de 56 milhões". 
 
Hoje há cerca de oito mil dentistas e, por ano, saem cerca de meio milhar de licenciados, vindos de sete faculdades (quatro privadas e três públicas).
(Notícia no Público)

15 outubro 2011

Sem natalidade não há crescimento económico

Os efeitos da baixa fertilidade podem parecer favoráveis à economia. Por terem menos filhos a cuidar, cada vez mais mulheres se integram no mercado laboral, os adultos trabalhadores concentram-se mais em gerar riqueza e aumenta o consumo de bens e serviços. Igualmente, por serem poucos, cada filho recebe maior investimento.
   

Mas quando o número de nascimentos deixa de ser suficiente para renovar as gerações , os efeitos negativos anulam esta prosperidade.

Surgem consequências mais graves: contraceção da força de trabalho, aumento progressivo da população dependente e redução da população jovem, desaceleração do mercado (especialmente de sectores que dependem do consumo das famílias), falta de incentivos endógenos para a inovação tecnológica e científica, diminuição do empreendedorismo (concentrado sobretudo na população jovem), crescimento económico mais lento, e sobrecarga do erário público para o pagamento de pensões de reforma.

Claro que agora é a própria ONU a acender os alertas vermelhos, por causa da crise económica que se agrava pela baixa natalidade, mas esta organização continua a promover o controle de natalidade por meios químicos agressivos e inclusive o controle de natalidade pelo aborto. Ou seja, vamos continuar a pagar a elevada fatura da nossa incoerência.

E Portugal já sente este peso.
(Relatório "The sustainable demographic dividend: What fertility and family have to do with the economy" (SDD), publicado pelo National Marriage Project da Universidade da Virgínia, com o patrocínio do Social Trends Institute)

Estação de Osaka

(Demora cerca de 4 minutos, mas vale a pena esperar.)



12 outubro 2011

Ninguém vai chorar pelos gestores dos hedge funds

«O mundo despediu-se do co-fundador da Apple como o empresário mais admirado nesta época da sociedade da informação. (...) O chefe com quem muitos gostariam de trabalhar. Com empresários como ele, o capitalismo mostra a sua força de inovação, o mercado consagra os produtos de mais qualidade e a liberdade de empresa é utilizada para estabelecer uma sintonia com os clientes como poucos conseguiram antes da Apple.

Pelo contrário, os convocados pelo "Ocupa Wall Street" e os indignados de outros países protestam contra os desmandos do capitalismo financeiro que está na origem da crise económica. Abrigado numa desregulação crescente, o sector financeiro assumiu riscos de crédito cada vez maiores, com "inventos" que aumentaram grandemente o volume de transacções com que os bancos podiam fazer dinheiro. 
 
 
Não era o risco do empresário que aposta num produto inovador. Era o risco do especulador, de quem procura um lucro máximo a curto prazo sem se preocupar com o que pode vir depois.

Steve Jobs soube dar ao público produtos que respondiam com novas soluções a necessidades reais, instrumentos fiáveis, bem feitos. E conseguiu que esses produtos fossem simples de utilizar, uma tecnologia "de rosto humano" e design atraente.

O capitalismo financeiro também fez gala de uma grande inovação na mesma época em que a Apple se desenvolvia. Até demasiada. 
 
Mas os seus produtos não estiveram ao serviço das necessidades do cliente, mas da multiplicação dos lucros dos financeiros, frequentemente com activos tóxicos. Tal como os produtos da Apple se caracterizavam pela simplicidade de utilização, os das finanças eram cada vez mais opacos e complexos, para disfarçar muitas vezes o engano. 
 
Com instrumentos financeiros sofisticados que entendiam cada vez menos (swaps, obrigações de dívida colaterizadas, derivados,...) faziam-se circular quantidades de dinheiro superiores ao PIB da economia real. Por fim, a "alavancagem" foi a pique, revelando a magnitude da ficção financeira.

O que mais dói e o que atiça a indignação é que muitos dos que levaram ao desastre o sector financeiro saíram muito bem parados, com bónus chorudos e indemnizações generosas, que não poucas vezes se concederam a si próprios. 
 
Steve Jobs também era um multimilionário, mas tinha feito o seu dinheiro vendendo produtos de excelência, não hipotecas sub prime. Se na última década as acções da Apple subiram uns 3.500% no Nasdaq não foi por simples manobras financeiras, mas pela confiança dos investidores em produtos reais que o público esperava com avidez.»  (...) (Em Aceprensa)

O aborto selectivo de meninas chega à Europa

O aborto seletivo chega à Europa: a deputada socialista Doris Stump (Suíça) apresentou uma proposta de resolução ao Conselho da Europa por causa do desequilíbrio de nascimentos entre rapazes e meninas.

De facto a desproporção de nascimentos, por causa da discriminação do sexo dos bebés abortados, nalguns países europeus é equivalente à que se encontra na China e na Índia, onde há muito tempo a prática do aborto seletivo é usada.

Foi pedido aos países membros do Conselho que desenvolvam protocolos que impeçam que o pessoal de saúde "revele" o sexo dos bebés no útero com o objetivo de evitar o aborto seletivo de meninas.

29 setembro 2011

empregabilidades ...

«Segundo o Boletim do Emprego Público, no último ano, a Administração Central do Estado perdeu sobretudo professores, educadores de infância, enfermeiros e médicos.

Os ministérios da Educação e da Saúde foram os que mais contribuíram para a redução de mais de 16 mil postos de trabalho entre Junho deste ano e o período homólogo de 2010.

O segundo ministério com maior quebra no número de funcionários foi o da Saúde, registando uma diminuição de 4.049 profissionais nas instituições públicas de saúde, dos quais 1.003 eram enfermeiros e 232 eram médicos.» (2011-09-27, no Jornal de Negócios)

15 setembro 2011

Um homem coerente ...


«Os fundamentalistas religiosos têm razão numa coisa: sem Deus, não há moralidade. Acontece porém que, do meu ponto de vista, não têm razão noutra: a existência de Deus. Daí que, em minha opinião, não haja moralidade.»

Escrito em 21 de Agosto de 2011, pelo Prof. Joel Marks, da Universidade de New Haven e membro do Centro Interdisciplinar de Bioética da Universidade de Yale, aqui.

08 setembro 2011

"Cada um acha que as suas acções não afectarão os demais"

Wolfgang Munchau, citado no Economia & Finanças (artigo original do Finantial Times, traduzido no Diário Económico):
 
 
(...)«E como é típico na zona euro, cada país comporta-se como uma qualquer pequena economia aberta no outro extremo do mundo. Cada um acha que as suas acções não afectarão os demais.

Mas quando a França, Espanha e Itália contraem as suas posições orçamentais ao mesmo tempo, juntamente com a Grécia, Portugal e Irlanda, o resultado é uma contracção orçamental coordenada. Apesar de alguns destes países terem um problema orçamental, a zona euro no seu todo não. O rácio da sua dívida face ao PIB é mais baixo do que o dos EUA, Reino Unido ou Japão. Se a zona euro tivesse passado para uma união orçamental há alguns anos atrás, o seu ministro das Finanças estaria agora em posição de agir. Em vez disso, o actual sistema de políticas não coordenadas conduziu a uma austeridade contagiosa e um abrandamento contagioso.

Isto porque, enquanto não houver união orçamental, os Estados membros da zona euro não terão outra opção que não seja coordenarem-se entre si. 
 
Eu iria mais longe e defenderia um estímulo orçamental na Alemanha, Holanda e Finlândia para compensar a austeridade no Sul da Europa. 
 
O que importa é a posição orçamental da zona euro no seu todo. Existe ainda pouco reconhecimento nas capitais da zona euro de que o abrandamento económico constitui uma ameaça à existência da mesma. E acho que este abrandamento económico vai atingir fortemente a zona euro sem que esta se possa defender. E quando isso acontecer, a crise da zona euro vai acentuar-se e as coisas vão ficar muito feias.”» (...)

05 setembro 2011

O grande assalto *dos* bancos ...

Artigo de Nassim N. Taleb, professor da Universidade de Nova Iorque, especialista em engenharia do risco (autor de "O Cisne Negro"):

(...) «Parece-me bastante iníquo que os bancos, que ajudaram a causar as atuais dificuldades económicas e financeiras, são precisamente os únicos que não sofrem com isso - de facto, em muitos casos até estão a beneficiar com isso.

Os bancos que dominam o mercado são estranhos em muitos aspectos. Não é segredo (agora) que eles operaram como esquemas sofisticados de compensação que mascararam as probabilidades de baixo risco, os eventos de alto impacto tipo "cisnes negros", beneficiando da implícita almofada gratuíta das garantias do Estado.


Os lucros que têm obtido não resultam tanto das suas competências, como da alavancagem excessiva; lucros que depois são distribuídos de modo desproporcionado pelos seus próprios quadros, enquanto as perdas - por vezes maciças - são suportadas pelos acionistas e pelos contribuintes.

Por outras palavras, os bancos assumem riscos, reservam para si o eventual lucro mas, quando há perdas, transferem-nas para os acionistas, para os contribuintes e, até, para os pensionistas.» (...)

Eu sei que está na moda bater no sistema bancário, mas este senhor não costuma escrever por acaso e estes argumentos merecem discussão, parece-me ...

28 agosto 2011

E como chegar lá? ...

(...) «A ministra do Trabalho alemã, a cristã-democrata Ursula von der Leyen, considera que a crise da zona euro só pode ser superada fortalecendo a união política do continente com a criação dos "Estados Unidos da Europa". (...) «a moeda única europeia não é suficiente para fazer face à competição global.» (...)

Um debate a seguir

Artigo no The Lancet, Volume 378, Issue 9793, Page 755, 27 August 2011:

O Parlamento da Hungria acaba de aprovar, para entrar em vigor a 1 de Setembro próximo, uma taxa especial a incidir sobre os alimentos pouco saudáveis. Esta medida foi desencadeada pela percepção de que o país está numa situação de "epidemia" de obesidade, com 1 em cada 2 cidadãos a acusar excesso de peso ou obesidade.


As medidas irão ser aplicadas aos alimentos pré-embalados que contenham teores elevados de sal e açúcar, incluindo as batatas fritas, aperitivos salgados, chocolate, doçaria,
biscoitos, sorvetes e bebidas energéticas.


A Fundação do Coração já se pronunciou de modo positivo, pela voz do seu presidente, Andras Nagy: "Batalhámos muito por isto. Estamos optimistas em relação aos resultados."
O Primeiro Ministro afirmou que o dinheiro recolhido irá ser usado para apoiar o Serviço Nacional de Saúde que está em fortemente endividado e justifica a medida afirmando que "aqueles que têm hábitos pouco saudáveis devem contribuir mais para o sustento do SNS".

Mas os críticos, entre os quais se encontram os industriais de alimentos, desvalorizam a iniciativa. Dizem que ao discriminar apenas alguns produtos, irão empurrar as pessoas para comprarem no estrangeiro e prejudicar o comércio local. Acrescentam que pessoas pobres, que têm uma percepção errada acerca do valor alimentar destes alimentos, irão ser afectadas de modo desproporcionado.

O governante responde que "estas taxas não interferem com a pobreza dado que os alimentos que são taxados são alimentos de capricho e são dispensáveis".


A posição da OMS, através do coordenador do Departamento para a Promoção da Saúde é cautelosa: "A OMS recomenda aos estados membros que devem incluir as políticas fiscais na promoção da saúde, mas que essas políticas necessitam de ser avaliadas para identificar os riscos de efeitos não desejados nas populações vulneráveis. Em geral, a maioria dos estudos têm indicados que as taxas [sobre alimentos gordos] têm um efeito regressivo sob o ponto de vista da equidade."

Outros estados europeus têm aplicado medidas semelhantes

- Noruega: taxa sobre o açúcar e o chocolate;
- Dinamarca: vai introduzir uma taxa sobre as gorduras saturadas, neste ano;
- Finlândia: já têm taxas sobre refrigerantes, sorvete e chocolate; vão introduzir taxa sobre gorduras saturadas;
- Roménia: chegou a estar em proposta uma taxa sobre todos os alimentos que utilizassem gorduras e sobre todas as "fast-food"; se tivesse sido aprovada, seria a legislação mais radical e avançada da UE; a proposta caiu depois de protestos da Federação da Indústria Alimentar que argumentou com a perda de mais de 30 mil postos de trabalho, num país em que o rendimento médio das famílias é de 300 €.


Na Hungria alguns críticos dizem que a legislação é demasiado leve por não incluir todos os produtos gordos, mas apenas alguns alimentos, no que são corroborados pela OMS que chama a atenção que as taxas que apenas incidem sobre um leque limitado de produtos não produzem resultados - as pessoas simplesmente utilizam outros produtos semelhantes, igualmente pouco saudáveis.

Outros, como o nutricionista privado de uma clínica de Bucareste, são cépticos em relação ao poder de mudança que as taxas têm: "Se alguém quer usar um determinado alimento, não adianta proibi-lo. O que o Estado tem que fazer é investir na educação das famílias para que expliquem porque é que certas escolhas não são inteligentes, e não restringir o acesso".

27 agosto 2011

"as mulheres sustentam metade do céu"


Na prestigiada revista de medicina The Lancet (Volume 378, Issue 9793, Page 742, 27 August 2011) este articulista diz o seguinte:

«O líder Chinês Mao Zedong uma vez disse que "as mulheres sustentam metade do céu". A China actual corre o risco de que o céu lhes caia em cima. O censo de 2010 mostra que o numero de raparigas nascidas tem vindo a diminuir progressivamente ao longo da última década, atingindo a relação de 118 rapazes nascidos por cada 100 raparigas, o desequilíbrio de sexos mais alto de todo o mundo.

Na China, só o Tibete e a província de Xinjiang têm ratios equilibrados de sexo ao nascimento.

Os problemas sociais avolumam-se com cerca de 30 milhões de chineses incapazes de encontrar mulher no ano de 2013.» (...)

O problema é idêntico noutros países, segundo a agência de notícias Aceprensa, «Na Índia nascem 112 meninos por cada 100 meninas, o que, segundo o censo de 2001, traz como consequência haver 93,3 mulheres por cada 100 homens.
Isto supõe um défice de cerca de 35 milhões de mulheres, cifra nunca antes alcançada nesse país. Atendendo a que esse défice se acentua nas gerações mais jovens, isso significa que a o número de raparigas eliminadas tem crescido.»


O curioso é que «Contra o que seria de esperar, a rejeição das raparigas e o recurso ao aborto não se pode imputar à pobreza, ao subdesenvolvimento e ao analfabetismo, mas antes à prosperidade.

Os grupos sociais mais hostis às meninas não são os pobres mas sim as classes médias, para as quais o custo da festa e o dote de uma filha representam um obstáculo à ascensão social» (...)

«Quase se poderia dizer – escreve Mainer – que um feto feminino tem mais oportunidades de vir ao mundo num bairro de lata do meio rural do que num bairro de classe média.»

«As autoras feministas que [como Mainer] defendem o direito ao aborto, vêem com angústia que este foi transformado numa arma contra as mulheres.

E, embora evitem utilizar uma linguagem que se assemelhe à que usam os grupos pró-vida, não podem evitar que muitas das suas propostas e reacções se assemelhem.


Será preciso ir à Índia para ouvir uma feminista dizer: “É pura e simplesmente o grau máximo de violência contra as mulheres: é-lhes negado precisamente o direito de nascer.”

Sem porem em questão o aborto, o que as feministas condenam nesta situação é que a ecografia e a interrupção da gravidez, que em princípio deveriam representar um progresso para as mulheres, se tenham ‘desvirtuado’ para se virarem contra elas.

Contudo, pela lógica do direito ao aborto, pouco se pode objectar.

Se o feto pode ser eliminado por qualquer motivo que o torne indesejado para a mulher (económico, social, psicológico …), porque não com fundamento no sexo? As mulheres indianas, bem como os maridos, preferem filhos varões, aos quais, entre outras coisas, não é necessário dar um dote.»

Ou seja, esta gente que diz defender a "opção das mulheres", o que fará "quando as mulheres desaparecerem"?