
(...) «A questão é que sair à rua, só por si, não resolve os problemas, embora possa ser uma maneira adequada de começar a abordá-los.
Mas se o défice de representação de que se acusa as instituições políticas é grande, o dos indignados é maior. O movimento dos indignados não consegue progredir a menos que crie alguma estrutura de liderança e representação, bem como os canais pelos quais toma decisões. Queira ou não, o movimento tem que tomar posição perante as atuais vias de participação política e, tarde ou cedo, terá que assumir que quer fazer parte da engrenagem do poder. Isto pode por nervosos alguns dos seus elementos, mas não querer encarar isto é remeter-se para uma utopia ou apenas para a marginalidade.
No meu entender, o maior risco que correm estes movimentos é permanecerem numa minoria de idade política. Não pela sua inexperiência, mas antes pela falta de realismo e compreensão da política. Na política, o desejável tem que estar sempre em diálogo com o possível, e a negociação faz parte do seu ADN. Isto implica uma permanente redução de expectativas e pretensões.
Talvez a maioria dos indignados não queiram "sujar-se" com um sistema que consideram corrupto, e nem sequer estejam dispostos a participar do "poder". Neste caso a indignação permanece apenas como um sentimento ou, no melhor dos casos, como uma referencia ética, como uma espécie de consciência paralela ao "sistema".
A questão então é se um fenómeno deste tipo tem pés para durar.
Na minha opinião o dilema com que se enfrentam os indignados é se querem transformar a política por dentro, ou se decidem permanecer como uma espécie de consciência ética, mas marginal. É uma disjuntiva difícil porque, ou renunciam a algumas pretensões e ao seu atual esquema de assembleias para articularem com a política "convencional"; ou instalam-se na marginalidade, correndo o risco de se diluirem» (...) (Francisco Borja, em Arvo.net)







