«Países que exportam capital mas importam alimentos estão a transferir a sua produção agrícola para países com necessidade de capital ou com terra de sobra.»
(
...) «Michael Ochieng Odhiambo, [é o] autor do relatório "Pressões comerciais sobre terras em África", que realizou a pedido da Coligação internacional para o Acesso à Terra. Odiambo é também advogado ambientalista e diretor executivo de um instituto para resolução de conflitos sobre recursos sediado no Quénia, e acrescenta que tal fenómeno equivale a uma expropriação, precisamente porque nem a população nem os costumes locais são levados em conta.
Um belo dia chegam tratores que lhes começam a lavrar a terra e quando perguntam às autoridades locais o que se passa respondem-lhes que ninguém sabe; foi tudo secretamente acordado com alguns funcionários governamentais corruptos, sem que nenhum habitante local tivesse sido consultado.»
Desenvolvimento ou apropriação?
«As empresas estrangeiras e as multinacionais que investem em terrenos em África refutam tais acusações e asseveram que estão a fornecer novas sementes, nova tecnologia e novas alfaias agrícolas, para além de proporcionarem dinheiro. A companhia britânica New Forest Company, que a Oxfam acusa de ter expulsado das suas terras 20.000 pessoas no Oeste do Uganda, afirma ter um historial impecável de investimentos sociais e de desenvolvimento, tendo também criado 2.000 postos de trabalho em zonas remotas do país, tornando maior o acesso a atendimento médico, à educação e a água depurada.
Os seus opositores afirmam que argumentos como o da criação de emprego e o fomento do desenvolvimento económico não são senão "patranhas" do governo, e que tais companhias são "roubos" neocoloniais, que apenas enriquecem as elites locais.
A resposta de Odhiambo é que ninguém nega que o modo como essas extensões de terra são usadas possa melhorar, e que tais intervenções nada têm de mau. A queixa consiste no modo como tem decorrido o processo. São normalmente ignorados por completo os direitos das comunidades locais, cujo sustento se baseia nesses terrenos. Em alguns casos, empresas chinesas, por exemplo, trazem os seus próprios trabalhadores e desalojam os habitantes das suas terras ancestrais ou comunitárias. Os governos corruptos e a falta de leis e normas adequadas agravam a injustiça.
Lorenzo Cotula, do Instituto Internacional do Meio Ambiente e do Desenvolvimento, afirma que nenhum país africano exige legalmente o consentimento livre e informado das pessoas afectadas por estes acordos sobre terras.
Alguns países desenvolvidos sentem-se atraídos pelo facto de faltarem em África instituições democráticas que funcionem devidamente; e por serem poucas ou inexistentes as leis reguladoras das condições laborais, da protecção do ambiente ou da propriedade comunal da terra. Muitos governos africanos consideram-se proprietários de toda a terra e agem como se não existisse propriedade comunal.»
Mas ...
«Nenhuma rapariga que hoje em dia vá à escola quer passar o resto da vida a cultivar a terra. Ela viu quanto a mãe sofreu e vê que se lhe oferecem melhores oportunidades; os rapazes, menos ainda. Para eles, a capital ou o centro urbano mais próximo são a terra prometida, mesmo se isso supuser uma vida de miséria a realizar trabalhos temporários numa obra durante uma temporada» (...)
Então?
(...) «Qual é então para a agricultura africana o caminho do progresso? Se os seus habitantes fossem consultados e tiveram voz e voto, e se estrangeiros e africanos trabalhassem juntos, poder-se-ia desenvolver a agricultura, tomando os africanos gradualmente conta dela e pondo-se um freio ao abandono da terra?» (
...)
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