Jornal de Negócios

06 março 2012

Génios ...

«A cada dia, nos vários cantos da Terra, milhares de economistas distribuem palpites sobre a bancarrota de alguns países europeus, entre os quais Portugal. Os portugueses, ou pelo menos os portugueses que militam no PS e no Bloco, só prestam atenção aos palpites de um economista: o americano Paul Krugman. Porquê? Mistério.

É verdade que o sr. Krugman foi Nobel da Economia, mas nem o prémio é prova inquestionável de sensatez nem deixa de distinguir sujeitos com concepções bastante díspares. 

É verdade que o sr. Krugman se define como um discípulo de Keynes, mas, por incrível que pareça, "keynesianos" há às resmas, e a tese de que a economia depende de "investimentos" estatais para avançar já conheceu melhores dias, quase todos antes de os "investimentos" espatifarem diversas economias.

É verdade que inúmeros especialistas consideram o sr. Krugman um génio, mas qualquer leigo percebe que a sua genialidade não dispensa uma dose considerável de banalidades e contradições. 

É verdade que o sr. Krugman é um convicto defensor do Estado dito "social", mas essa crença mostra-se de escassa utilidade numa crise que, em larga medida, é a crise do próprio Estado dito "social". 

É verdade que o sr. Krugman tem sido um simpatizante crítico da administração Obama, mas por azar tende na maioria das vezes a simpatizar com os erros da administração e a criticar os raros acertos. 

É verdade que o sr. Krugman chegou a trabalhar no Banco de Portugal, mas um estágio de três meses em 1976 não habilita ninguém a conduzir a nação através de uma coluna no New York Times. 

É verdade que o eng. Sócrates chegou a citar favoravelmente o sr. Krugman, mas a realidade devia levar a que fugíssemos apavorados das referências do ex-primeiro-ministro, não a que as homenageássemos com três doutoramentos de três universidades públicas lisboetas conforme aconteceu esta semana. 

Em carne, osso e aura, o sr. Krugman veio a Lisboa recolher a vassalagem.

 Após recomendar que os salários dos indígenas caíssem 30% face à Alemanha (o que é curioso para um icónico adversário da austeridade), almoçar com Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar (o que é bizarro para um líder, mesmo que remoto, da oposição) e elogiar as políticas do Governo (o que é inaudito para quem, grosso modo, sempre prescreveu políticas opostas), o sr. Krugman admitiu que Portugal é um país "difícil de explicar". Se ele não consegue, imagine-se nós.»

05 março 2012

Para pensar

(...) «Os cortes atuais em educação ou saúde não são obra de um maléfico génio neoliberal que quer destruir as bases do Estado Social. São a consequência de não ter existido vontade de enfrentar realidades incómodas. Mas nesta conjuntura, já não pode haver desculpas para não nos interrogarmos sobre como gastar melhor, em vez de gastar mais.» 

(Em aceprensa.pt, "Os cortes como cura de emagrecimento")

29 fevereiro 2012

aspiradores de vácuo

(...) « A recente lei sobre barrigas de aluguer mostra bem a sua actividade fervilhante e o desejo insaciável de prosseguir com experimentalismos sociais no campo da família e da vida humana.

Entretanto o PSD e o CDS andam a reboque desta agenda frenética, sem assumirem posições claras, numa vacuidade de ideias ordenadas,  recorrendo a argumentos sinuosos e ambíguos, defraudando expectativas  e sem capacidade para representarem muitos milhares dos seus eleitores. 

Ou seja, enquanto a esquerda revolucionária vai fazendo a sua guerra munida de um paiol  inesgotável de munições ideológicas, a direita complexada parece apenas aspirar manter-se no “palácio do poder”, saboreando uma influência ilusória e renunciando negligentemente propor uma sociedade alternativa. 

Conclui-se, portanto, que este políticos creem erradamente que aquilo que mobiliza um povo não são os princípios e a ideologia, mas apenas os números e a criação de riqueza. Ora, ninguém morre por um negocio, mas há quem ofereça a sua vida por um ideal.» (...) 

(Pedro Afonso, aqui)

27 fevereiro 2012

Qiu Shi

"Devemos ter muito presente que forças hostis internacionais estão a intensificar o complot estratégico de ocidentalizar e dividir a China, e os âmbitos ideológicos e culturais são as áreas principais da sua infiltração a longo prazo." Palavras do atual presidente da China, Hu Jintao, numa revista oficial do Partido Comunista Chinês, chamada Qiu Shi.

E continua Hu Jintao: "Devemos entender em profundidade a seriedade e complexidade do combate ideológico, fazendo soar os alarmes e permanecendo vigilantes, e tomar poderosas medidas para estar de guarda e responder". (...)

Pois é ...

06 fevereiro 2012

Escolhas coletivas

«O acordo de concertação social assinado no dia 18 é um documento decisivo da nossa história recente. Isto só se entende considerando a essência desta crise.


Muitos tomam a recessão mundial como financeira, acusando dela bancos e agências de rating. Têm razão, mas esquecem que países com crescimento sólido, como Irlanda, Bélgica e Reino Unido, não são incomodados apesar de dívidas maiores que a nossa. O fundo do problema é pois económico e social.


O desenvolvimento que o mundo vive desde a revolução industrial tem tido várias fases. Esta é dominada por dois choques principais, a expansão da China e Índia e a revolução informática. Estes avanços criaram um dos momentos mais maravilhosos da humanidade, com enorme progresso e redução espantosa da pobreza mundial. Como não há almoços grátis, este desenvolvimento tem custos, alargando o fosso de rendimentos no Ocidente, de onde sai a recessão e a dívida.


Os mecanismos são evidentes Os trabalhadores chineses concorrem com o trabalho não especializado na Europa e EUA, enquanto a sociedade da informação elimina empregos de escritório e beneficia efusivamente o talento na gestão, arte, finanças, desporto, computação, etc. Isto espreme os salários baixos, reduz os lugares intermédios e premeia alguns ricos. As dificuldades de crescimento vêm da reestruturação económica imposta pelo mercado global, enquanto o endividamento surge de políticas e expedientes para amaciar a vida dos m
ais atingidos. Foi o incentivo político à aquisição de casa pelos pobres que criou o subprime nos EUA.
A questão decisiva deste tempo é, portanto, social.

Portugal é um caso paradigmático. Na "década perdida", além da estagnação ser disfarçada pela dívida externa que agora nos arruína, íamos caindo numa das maiores desigualdades europeias, como mostram estudos recentes. Mas é preciso ver que esses estudos têm dados anteriores à troika, que está cá só há dez meses. O fosso entre ricos e pobres só pode resultar de quinze anos de políticas socialistas, que diziam defender os trabalhadores, combater a pobreza e construir a sociedade justa.

Este aparente paradoxo é compreensível ao notar que as tais políticas bem intencionadas acabavam por usar os impostos de todos (sobretudo pobres) para beneficiar certos grupos, próximos do Estado. Os últimos anos reforçaram o processo, pois a crise começou em 2008, com falências e desemprego, mas funcionários e pensionistas estiveram incólumes três anos, até à chegada da troika.


O terrível choque no Ocidente, como em Portugal, impõe difícil ajustamento para recuperar uma sociedade justa e dinâmica, adaptada ao novo mundo global. Isso exige medidas sérias e equilibradas das elites e governos, para eliminar privilégios, combater a corrupção, apoiar os pobres, flexibilizar a economia. Mas exige também da sociedade serenidade e solidariedade, suportando os inevitáveis sacrifícios sem perder o rumo.


Percebe-se perfeitamente a irritação das populações pela austeridade e perda de direitos exigida na flexibilização. Revoltas, greves e subida dos radicalismos, bom como sonhos de revoluções e sociedade ideal, são compreensíveis. Robespierre, Marx e Lenine viveram tempos destes e hoje a Grécia envereda pelo mesmo rumo violento. Mas a reacção brutal trouxe sempre o desastre.
Existem alternativas, como a serena "revolução dos cravos".

Comparada com casos paralelos, nacionais e estrangeiros, o 25 de Abril destaca-se pela sensatez. Em particular, na confusão revolucionária de 1974-75 os salários reais subiram 10% acumulados, estrangulando a economia. Em seguida aconteceu algo único na história: um país democrático, com sindicatos livres, teve o patriotismo de suportar uma queda acumulada de 12% nos salários reais de 1976-79, recuperando o equilíbrio.

O choque social destes anos será terrível. O nosso futuro depende de Portugal cair na revolta, como Marx sugeria e a Grécia mostra, ou enfrentar as dificuldades com força e serenidade. O acordo de dia 18 prova que ainda está vivo o espírito de Abril.» (J. César das Neves, DN dia 6)

31 janeiro 2012

Galinhas ...

Na RR on-line, por Aura Miguel:

«Há quem perca a casa por causa da crise, mas as galinhas europeias têm que ter um ninho, um poleiro e terra para esgravatar e desgastar as unhas.
A decadência da Europa está aí, à vista de todos e com problemas sem fim: crise financeira, endividamento das famílias, insolvências, desemprego, fome.


Há famílias que perdem a sua casa por causa das dívidas. É grande a desorientação sobre as prioridades, há muita confusão sobre os valores da família e educação... Já para não falar na solidão e desespero de tantos, nos idosos que morrem abandonados, nos rostos tristes ou apreensivos de muitos que se cruzam connosco, no desencanto que nos espera no próximo futuro.

Mas a razão destas minhas palavras sobre a decadência da Europa não tem a ver com o que disse até agora, porque problemas sempre os haverá. Tem, sim, a ver com a maneira como as nossas instituições, nomeadamente, ao nível europeu, enfrentam tudo isto.

Então não é que ontem mesmo a Comissão Europeia ameaçou multar Portugal por não cumprir uma directiva com indicações fundamentais para galinhas felizes?! Sim: a Europa quer galinhas poedeiras felizes e quem não lhes der um espaço com 750 cm2, uma cama, um ninho, um poleiro e terra para esgravatar e desgastar as unhas será multado...»

A "crise" no Banco de Portugal

Num blogue aqui ao lado aponta-se o dedo ao Banco de Portugal por uma despesa de 5000 € em equipamento de golfe ... É o mesmo banco que não sabe se deverá cortar nos subsídios de natal e férias, como foi feito para os restantes trabalhadores do Estado ...

24 janeiro 2012

Voltamos ao tempo da resistência


JPP: «No meio do exercício de absoluta banalidade,-  o poder gosta da banalidade, - em que tudo foi mau, as declarações irrelevantes, a música mal ensaiada, o tipicismo de uma cozinheira angolana destinado a dar cor local, num hotel de luxo que seria um melhor retrato da realidade angolana, e de umas conversetas sobre “cultura” ao nível daquelas galerias de arte que vendem reproduções de um menino a chorar, lá houve uma pergunta mais que estudada, mais que prudente, mais que temerosa, sobre a corrupção, quase como se se pedisse desculpa de a fazer.
Que a pergunta era um proforma, provavelmente negociado com o ministro (ele próprio envolvido em vários casos de corrupção),  está na forma artificial como tudo se desenvolveu, como se tudo fosse apenas um problema de “percepção” de estrangeiros que não conhecem Angola. Sim, havia de facto alguma corrupção, mas isso devia-se à burocracia. Sim, havia de facto alguma corrupção, mas isso devia-se à juventude do país e à guerra. Sim, era um “problema doméstico”, mas já há umas leis excelentes e duras que permitem combatê-la. 

Na sala estavam vários exemplos de gente que ganha umas centenas de dólares de salário formal e detêm fortunas de milhões. Isto num país em que a maioria da população vive na miséria e em que não há verdadeira indústria, apenas rendimentos de petróleo ou diamantes, controlados na sua distribuição pelo MPLA e pelo Presidente da República e a sua entourage.» (...) No Abrupto.

23 janeiro 2012

«Qual é o teu valor de mercado?»

«Qual é o teu valor de mercado, mãe? Desculpa escrever-te uma pequena carta, mas estou tão confuso que pensei que escrevendo me explicava melhor.

Vi ontem na televisão um senhor de cabelos brancos, julgo que se chama Catroga, a explicar que vai ter um ordenado de 639 mil euros por ano na EDP, aquela empresa que dava muito dinheiro ao Estado e que o governo ofereceu aos chineses.

Pus-me a fazer contas e percebi que o senhor vai ganhar 1750 euros por dia. E depois ouvi o que ele disse na televisão. Vai ganhar muito dinheiro porque tem o seu valor de mercado, tal como o Cristiano Ronaldo. Foi então que fiquei a pensar. Qual é o teu valor de mercado, mãe?

Tu acordas todos os dias por volta das seis e meia da manhã, antes de saíres de casa ainda preparas os nossos almoços, passas a ferro, arrumas a casa, depois sais para o trabalho e demoras uma hora em transportes, entra e sai do comboio, entra e sai do autocarro, por fim lá chegas e trabalhas 8 horas, com mais meia hora agora, já é noite quando regressas a casa e fazes o jantar, arrumas a casa e ainda fazes mil e uma coisas até te deitares quando já eu estou há muito tempo a dormir.

O teu ordenado mensal, contaste-me tu, é pouco mais de metade do que aquele senhor de cabelos brancos ganha num só dia. Afinal mãe qual é o teu valor de mercado? E qual é o valor de mercado do avozinho? Começou a trabalhar com catorze anos, trabalhou quase sessenta anos e tem uma reforma de quinhentos euros, muito boa, diz ele, se comparada com a da maioria dos portugueses. Qual é o valor de mercado do avô, mãe? E qual é o valor de mercado desses portugueses todos que ainda recebem menos que o avô? Qual é o valor de mercado da vizinha do andar de cima que trabalha numa empresa de limpezas?

Ontem à tardinha ela estava a conversar com a vizinha do terceiro esquerdo e dizia que tem dias de trabalhar catorze horas, que não almoça por falta de tempo, que costumava comer um iogurte no autocarro mas que desde que o motorista lhe disse que era proibido comer nos transportes públicos se habituou a deixar de almoçar. Hábitos!

Qual é o valor de mercado da vizinha, mãe? E a minha prima Ana que depois de ter feito o mestrado trabalha naquilo dos telefones, o “call center”, enquanto vai preparando o doutoramento? Ela deve ter um enorme valor de mercado! E o senhor Luís da mercearia que abre a loja muito cedo e está lá o dia todo até ser bem de noite, trabalha aos fins de semana e diz ele que paga mais impostos que os bancos?

Que enorme valor de mercado deve ter! O primo Zé que está desempregado, depois da empresa onde trabalhava há muitos anos ter encerrado, deve ter um valor de mercado enorme! Só não percebo como é que com tanto valor de mercado vocês todos trabalham tanto e recebem tão pouco! Também não entendo lá muito bem – mas é normal, sou criança – o que é isso do valor de mercado que dá milhões ao senhor de cabelos brancos e dá miséria, muito trabalho e sofrimento a quase todas as pessoas que eu conheço!

Foi por isso que te escrevi, mãe. Assim, a pôr as letrinhas num papel, pensava eu que me entendia melhor, mas até agora ainda estou cheio de dúvidas. Afinal, mãe, qual o teu valor de mercado? E o meu?» (Francisco Queirós)

19 janeiro 2012

tropeçando nos próprios pés

(...) «Os pais temem que os filhos venham a ficar em casa sozinhos, caso seja aplicado o novo regime que elimina o sábado como dia de descanso, por falta de estruturas capazes de acolher as crianças.»


«O que vai acontecer é que muitos filhos vão ficar sozinhos em casa, porque o mercado vai tentar dar resposta às mudanças, mas neste momento o país não está preparado, não tem estruturas para deixar os alunos», alertou Rui Martins, secretário da CNIPE.

O representante da CNIPE lembrou à Lusa que esta mudança implica ter os estabelecimentos a funcionar ao fim-de-semana, mas também ter transportes para as crianças: «Há muito tempo que deixou de haver escola ao sábado e, depois, também não há transportes. É preciso não esquecer que há muitas escolas que são distantes de casa dos alunos, que estão a muitos quilómetros de distância», lembrou Rui Martins.» (No Sol, 19 de Janeiro)

(maus) negócios

(...) «As Barrigas de Aluguer não são um bom negócio para as pessoas envolvidas. Parece, mas não. 

Queres ser durante nove meses apenas uma barriga? Poder, podes, mas estou a pedir-te o que ninguém merece. Estamos fartos de saber que o dinheiro não paga tudo e que brincar com os sentimentos, as fragilidades humanas, não abona em favor do humano. Ousa saber, sim! Agora, ousa fazer, nem sempre.

 Mesmo que eu deseje muito uma coisa, é preciso atender a todos os interesses envolvidos, e, principalmente, chamar as coisas pelos nomes, e tratar as pessoas como pessoas. Por muito que se insista em "pedir" uma barriga, por muito que se insista em "dar" a barriga, temos assistido ao filme, e à Medicina que assim se comporta. E também às leis que tudo enquadram. Não é famoso. 

Como gosta de repetir uma amiga minha: é um quadro de miséria. Mortal, mesmo. Sim, mesmo que eu seja a generosa amiga que empresta a barriga (e outros "cenários" reais poderia aqui referir), é caso para cantar a música pimba: "E quem é, quem é, e quem é, quem é, a avó da criança?" 

Mais, o bebé já crescidinho, transportando em si "carne" que é também de terceira (os médicos explicam melhor esta parte das interacções e transformações biológicas nos nove meses), estremecerá sempre ao ouvir Caetano Veloso perguntar: "Onde está você agora?". E não será seguramente o único a ter gravada essa pergunta, que é uma ferida no coração.» (Fátima Pinheiro, Público, 19 de Janeiro)