Jornal de Negócios

08 junho 2012

O futuro da União Europeia

(...) «Habermas entende a UE como um importante passo no caminho para uma comunidade cosmopolita democrática em que, paulatinamente, os interesses particulares dão lugar a outros mais universalistas. 
 
Uma comunidade política mundial é hoje uma possibilidade mais real que nunca, graças à globalização e ao maior fluxo comunicativo que corroeu o protagonismo do Estado-nação.

Mas existem impedimentos a este desenvolvimento pós-nacional. 
 
Por um lado, o mercado opõe-se obstinadamente e por princípio às possíveis reivindicações políticas de uma sociedade civil que quer domesticar a economia; por outro, a lógica do poder administrativo, burocratizado e anquilosado, está cada vez mais separada da dinâmica de uma rede cívica formada por cidadãos responsáveis.» (...) Resenha em  Aceprensa.pt

07 junho 2012

Como adaptar-se às novas formas de trabalho e emprego

A Mudança, ensaio de Lynda Gratton
A Mudança: O futuro do trabalho já chegou é um ensaio, escrito por Lynda Gratton, que coordenou a colaboração de cerca de duzentos participantes de todo o mundo, de 21 empresas. 

O livro descreve muitos casos práticos que refletem as variadísismas formas (de sucesso) no trabalho atual.
 Rigoroso e acessível mesmo ao leitor pouco habituado ao tema.

05 junho 2012

Teresa Salgueiro, um álbum diferente

«A consciência do mistério, do sobrenatural, é o ponto de partida para ter a coragem de viver»É desta forma que Teresa Salgueiro, outrora voz dos Madredeus, explica o sentido e o conteúdo do novo rumo que tomou, como solista e autora, com o novo álbum O Mistério; exatamente, "mistério". 

Um disco de rara beleza que alterna procura, herança clássica e expressão popular para cantar o homem, os valores, a esperança e, sobretudo, a fé, sem retórica mas mantendo os olhos abertos. Ao ponto de misturar a exaltação dos ideais com a denúncia da guerra e da cultura da morte.

O que a lançou na aventura de ser solista?

Na verdade, o modo de sentir a música não mudou. Mesmo agora estou dentro de um grupo [Carisa Marcelino acordeão, Óscar Torres contrabaixo, André Filipe Santos guitarra e Rui Lobato percussão] porque é no confrontar-se que se cresce. Continuo a procurar um sentido para mim mesma, trabalhando com os outros e assim aumentar a possibilidade de me exprimir.

Mas desta vez exprime-se com textos escritos por si.

Sim, é um desafio e uma oportunidade. Todos os textos nasceram sobre melodias vocais das canções já escritas: a dificuldade estava em conseguir entender-me a mim mesma, ao ponto de transformar em palavras com sentido os pensamentos e os valores que tenho dentro de mim. E consegui-lo é uma grande alegria.

Para o conseguir gravou o cd num convento?

Também. Na hospedaria do convento da Arrábida, do século XVI, estivemos isolados do rumor do mundo. E poder pensar, dedicarmo-nos uns aos outros e todos juntos à música, foi decisivo.

O «mistério» é dominado pela espiritualidade. Considera que é, hoje, uma exigência viva?

Seguramente que o é para mim. Só compreendendo que existe sempre o mistério na nossa vida, e que não podemos saber nem compreender tudo, é que podemos mudar as coisas. Porque é esta consciência que nos ajuda a ser humanos: frágeis, sim, mas também fortes. Verdadeiramente capazes, cada um a seu modo. Para mim é a arte, de aprender a viver.

Não escreveu versos abstratos, mas partiu sempre das dores do mundo contemporâneo…

Absolutamente. Porque só olhando o mundo com realismo é que nasce uma verdadeira esperança de o modificar. E para mim a esperança é o centro. Nunca fugir.

Por isso canta até mesmo a morte, e sem receios ou anseios, sublinhando «Só o amor ficará»?

Sim, porque é uma condição do nosso viver e, aceitando-a, damos mais valor à própria vida. A música "A Partida" nasce refletindo sobre a obsessão do ter mais, em vez ser. Acho que devemos recuperar o essencial. No final, apenas o amor dado e recebido será a medida das nossas vidas.

Não tem pudor em declarar a fé, em revelar, nos versos de uma canção, que ela é a sua «arma»?

Pelo contrário. É importante falar dela. É precisamente a fé que nos faz entender até as dores, dando-nos força para acreditar num futuro que não seja apenas o medo de novos erros, novas guerras.

Guerras a que dedica «A Batalha», denunciando a cultura da morte…

Era necessário. O livre arbítrio é um valor saudável: digamos não à morte, ao homicídio.

Em que medida ser mãe influencia o caminho que decidiu percorrer fora dos Madredeus, indo à realidade com os seus valores?

Muito, e transformou-me logo desde o início. Mas agora que a minha filha tem 13 anos, ser mãe continua a ensinar-me modos de olhar o mundo diferentes, tornando-me sempre mais atenta e consciente da responsabilidade daquilo que faço.

Andrea Pedrinelli, no Avvenire, de 30 de Maio de 2012.

01 junho 2012

Que corra mal, e acabe bem

Miguel Esteves Cardoso, no Público de 14 de Maio: 

«São dias de levanta e cai. Distraímo-nos, pensamos e caímos; afundamo-nos e esticamos as cabeças para apanhar ar e outra ideia da vida que não a pior.

Ser optimista é pensar que vai tudo correr bem. As coisas nunca correm bem - podem acabar bem, temporariamente, ou serem bem interrompidas, durante muito tempo. Mas o correr das coisas está cheio de quedas e levantamentos, de intervalos de espera e de desilusão, de esperança e desespero.

Há três atitudes para com o futuro, para as culturas que erradamente perdem tempo a considerá-lo. A mais irritante e improvável é a portuguesa: vai tudo correr bem.

Mesmo quando se vive até aos 120 nunca tudo corre bem. E acaba sempre mal. Na morte. Mesmo imaginando que tudo corre bem para uma criança de 12 anos que, por milagre, não sofre de nenhuma das doenças ou tormentos infantis e, sem dar por isso, morre de prazer com uma overdose de morfina.

A segunda mais irritante, mas menos improvável, é a hippie-americana: "Acaba tudo bem. Se ainda não está bem, é porque ainda não acabou." Aparece em muitos filmes. A versão clássica, não menos ilusória, é o all's well that ends well.

A menos irritante, mas mais deprimente, é a sufista: "Também isto há-de passar." Sim, passará. Mas a vida também passa. E não há nada que não passe nem se deixe de transformar. "Que corra tudo o menos mal possível e nunca acabe, mas continue, o mais bem possível" é o desejo que mais se deve dizer e desejar.»

14 maio 2012

Mudar de vida (outra vez)

J César das Neves, no Diário de Notícias

(...) « boa parte da nossa economia é balofa, produzindo a preços exagerados coisas que ninguém quer.
Assim o que hoje se sofre não é apenas a travagem de consumo gerada pela austeridade financeira. 

Largas centenas de milhar de trabalhadores terão de mudar de vida, porque os seus empregos artificiais nunca vão voltar, mesmo que o crescimento retome. 

Milhares de empresas têm de fechar ou mudar de sector porque o negócio acabou. Importante percentagem da sociedade terá que encontrar actividades realmente úteis. Portugal sofre uma das crises mais dolorosas e exigentes: a forçada reestruturação de quase vinte anos de distorção produtiva.

O debate político passa ao lado. As vozes que se levantam a pedir programas de crescimento não compreendem a questão. Portugal não precisa de crescer, mas de corrigir a estrutura produtiva para permitir um desenvolvimento sustentável.» (...

11 maio 2012

"a valsa da mudança precisa de dois andamentos"

Leonel Moura, no Jornal de Negócios:
 
(...) «para além de sacrifícios a direita não tem mais nada a oferecer.

Como isto é evidente, nos próximos anos iremos assistir a uma alteração substancial no panorama político da Europa. Os promotores da austeridade irão cair uns atrás dos outros. Mas não basta. Falta claramente na Europa um pensamento alternativo e inovador. Para já, o tão citado "rassemblement" à esquerda vai-se fazendo em torno da anti-austeridade. A direita cai porque as pessoas são contra as suas políticas e não porque sejam a favor de alguma coisa em concreto. Por isso votam tão disperso.» (...)

«terá de se pensar na generalidade das pessoas e não nos interesses privados. Esta ideia, que se instalou como uma virose, de que só as empresas geram riqueza é falsa. Numa sociedade, a riqueza gera-se de muitas maneiras, desde os contributos individuais, através da iniciativa ou do trabalho, até ao conhecimento, ciência, cultura, inovação, criatividade, cooperação, solidariedade.» (...)

03 maio 2012

O moralismo iluminado


(...) «Quando ouço falar do "festim do crédito", quem é que é responsável pelo "festim"? 
Quem deu a festa para recolher lucros, ou participou nela para ter vida mais fácil? A resposta justa é: pelo menos os dois. 
A injustiça da resposta é que só um aparece como "culpado" do "festim", e só um lhe paga os custos. 
E se falarmos mesmo dos muitos milhares de milhões que constituem a dívida nacional, que hoje é apontada como um fardo moral para os pobres que "viveram acima das suas posses", com esse plural majestático do "nós", em "nós vivemos acima das nossas posses", eles não foram certamente para o bolso das pessoas comuns que hoje lhes pagam o custo. 
Não foram os pobres, nem os funcionários públicos, nem a classe média baixa que fez as PPP. 
O discurso do poder é todo feito para culpabilizar os de baixo, enquanto quase pede desculpa para moderar um pouco os de cima. A resposta dos de baixo é uma rasoira populista e igualitária, que também não promete nada de bom para o futuro.» (...)

27 abril 2012

avisos à navegação

«Marine Le Pen surpreendeu nas eleições em França. Os 20% da candidata da Frente Nacional deixaram a generalidade da imprensa europeia em choque. Mas será que este choque higiénico nos serve alguma coisa para compreendê-la? Dizer que Marine Le Pen significa o regresso da "extrema-direita", da "ameaça fascista" ou da "xenofobia" na Europa pode funcionar como dramatização e apelo à memória. Mas passa ao lado das verdadeiras causas. Os trabalhadores votaram em Marine Le Pen. Porquê? (...)


Foi a França que criou as categorias políticas a que nos últimos 200 anos temos vindo a chamar esquerda e direita. Mais, foi em França que as múltiplas correntes da esquerda e da direita se encontraram num laboratório de ideias e experiências. 
 Por isso, quando ouvimos Marine Le Pen dizer "nós explodimos o monopólio dos dois partidos, dos bancos, das finanças e das multinacionais", só por falta de cultura política se pode pensar que este pensamento contra as finanças e contra as multinacionais é apanágio das esquerdas 
(...) no pensamento continental, a direita francesa foi sempre a que mais activamente recusou a economia como categoria fundante do político.

A recusa do "império da economia" permite-lhe mais facilmente conquistar o voto dos jovens precários, dos insatisfeitos e dos trabalhadores.
(...) o apelo ao patriotismo económico e a formas de proteccionismo hábil contra a concorrência desleal dos países com mão-de-obra barata e empresas deslocalizadas é exactamente aquilo que os trabalhadores querem ouvir. Entra num território importante para a esquerda. Nenhum político lhe pode ser indiferente.

Além disso, este foi o discurso de uma mulher divorciada, mãe de três filhos, que conhece o mundo do trabalho e nunca se desviou de uma linguagem simples e eficaz. 
O sucesso de Marine Le Pen representa a ascensão de uma direita radical de colarinho branco que, por todas as formas sofisticadas, tentará tirar partido da enorme ânsia de protecção e segurança dos cidadãos nacionais. 
Aquilo que estes dramaticamente pedem ao Estado é que os proteja. Da economia, da Ásia, dos outros. Ausente algumas décadas, o proteccionismo está de volta.» (Pedro Lomba, no Público, de 24 de Abril)

02 abril 2012

A "luta" da JSD ...

«a luta da JSD é contra quem tem emprego e a favor dos despedimentos, o resto é fantasia ideológica.» (...)
Escrito por J. Pacheco Pereira, e publicado na revista  Sábado.

Dava jeito que os j´s começassem a pensar (depressa). Há um enorme risco de que grande parte da vida política se reduza ao vácuo de tipo "socrático": muito ruído, muito foguetório e zero conteúdo.

30 março 2012

"Não é o Estado que está mais fraco, é o cidadão que está mais débil."

 JPP, no Abrupto

(...) «o que se está  a passar é mais uma redistribuição do poder, do que uma libertação da sociedade,

O Estado está mais pobre, deixou de ter dinheiro para muito que fazia? Verdade, mas isso não significa que esteja mais fraco, significa apenas que tem menos dinheiro.
Está o Estado-providência a encolher, com uma progressiva retirada do Estado de muitas funções sociais? Verdade, mas a substituição de um Estado-Providência por um estado assistencialista não diminui o seu papel "providencial", apenas muda a concepção do seu lugar e função, substituindo-se um mundo regulado de direitos colectivos (e de expectativas) por um mundo mais pontual de protecção individualizada aos pobres.
Está o Estado a recuar de algumas das suas prerrogativas de decisão em matéria de economia, de sociedade, de vida das pessoas? Não está. Bem pelo contrário. Continua a ser impossível fazer um grande negócio em Portugal, sem o beneplácito do Governo, e, a um nível mais localizado, sem o apoio da autarquia, processos como as privatizações continuam a ser feitos de forma discricionária, ao mesmo tempo que a regulação não existe ou está subordinada aos interesses dos sectores regulados.
Mudou-se significativamente a subsidiodependência, em áreas como a cultura? Não, apenas não há dinheiro para manter os subsídios e mesmo assim não todos. Como acontece em muitas áreas, a falta de dinheiro impede a manutenção dos velhos hábitos de "encosto" ao Estado, principalmente para os pequeno e médio-subsidiados, mas o princípio não foi alterado. Quando tornar a haver dinheiro, ele correrá pelas mesmas valas para os mesmos campos.» (...)

«O Estado acabou com abusos de vencimentos e desigualdades escandalosas nos salários e prebendas que paga? Não, passou a haver "excepções" para regras cada vez menos gerais e isso ainda reforça mais o poder de quem decide.

Os exemplos são muitos e a continuidade com o Governo anterior uma regra, embora a crise acentue a fragilização do cidadão face ao Estado e essa seja uma diferença importante.

Não é o Estado que está mais fraco, é o cidadão que está mais débil. O navio-almirante continua a ser as Finanças, cujo poder vai muito para além da lei (para os remediados e pobres)» (...)

21 março 2012

O país encolhido

J Pacheco Pereira, sobre o atual governo: 
 
(...) «A deslocação à direita foi tão violenta, sem rigor nem memória, que hoje um moderado do PSD que tente reformular no actual contexto algumas preocupações que fazem parte do gene do PSD parece um adversário do capitalismo e da liberdade económicos.» (...)

20 março 2012

Teste de realidade

Raquel Abecasis, na RR em linha:

«É hora de alterar contratos, privilégios e subsídios que sorvem diariamente os recursos do país para servir um pequeno grupo que gravita em torno do poder político.

A hora da verdade está a chegar para o Governo de Passos Coelho. Até aqui, goste-se ou não, o roteiro da “troika” tem sido cumprido à risca, com consequências evidentes para a maioria dos portugueses, que tiveram que mudar de hábitos e de vida. 

Agora, é a hora de mudar o essencial, ou seja, de alterar contratos, privilégios e subsídios, que sorvem diariamente os recursos do país para servir um pequeno grupo que gravita em torno do poder político. 
Se não mexer nisto, o Governo não reforma nada no país nem altera a substância do que é a despesa do Estado. Logo, a crise e a austeridade que agora sofremos não têm verdadeiramente nenhuma utilidade, porque, no fim, tudo volta a ficar na mesma. 

Para já, os sinais que chegam do Governo não são os melhores: os processos de privatização em curso não são completamente transparentes e os casos recentes da Lusoponte e da substituição do secretário de Estado da Energia levantam as maiores dúvidas sobre a real determinação do Governo em tocar nos interesses instalados. 

Sinais à parte, a verdade é que os prazos estabelecidos no memorando da “troika” são claros e estão quase a ser atingidos e, se o Governo persistir em dizer que faz sem, na verdade, nada fazer, rapidamente se acaba o teatrinho do bom aluno e, por ter medo de enfrentar o poder de alguns, o Governo arrisca-se a hipotecar o futuro de todo um país.»

09 março 2012

Mais do mesmo ...

Na revista Visão, em 8 de Março:

«Respostas vagas, incompletas ou mesmo recusa de informação foi o que conseguimos da maioria dos ministérios. Tal como a Associação Sindical dos Juízes, que levou o caso a tribunal.

As instâncias judiciais deram-lhe razão, mas a atitude mantém-se: no que toca a despesas dos gabinetes, a palavra de ordem parece ser «quanto mais opaco, melhor».

Do gabinete do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, responderam prontamente que dispunham de um fundo de maneio de 30 mil euros mensais, com o qual se pagam coisas tão diversas como o papel ou as deslocações.

Dos 13 gabinetes contactados, dois - Saúde e Economia - não deram sequer resposta. Os restantes remeteram para legislação ou prestaram informação incompleta.»

08 março 2012

Constanza Miriano explica porque é que gosta dos homens

Constanza Miriano explica porque é que gosta dos homens:

«Gosto dos rapazes porque batem-se selvaticamente à espadeirada disputando o título de Supremo Soberando do Corredor, e cinco segundos depois de se terem matado dividem varonilmente uma garrafa de coca cola, para depois recomeçarem a brincar como se nada fosse.

Gosto deles porque nunca fazem um psicodrama, como as da sua idade, não descem aos abismos angustiantes do desespero só porque alguém "disse que eu sou máááá".

Gosto deles porque o máximo de vingança de que são capazes é um pontapé, e nunca se dedicam a fazer comentários perversos a meia voz sobre a cor da camisola da sua inimiga nas suas costas.

Gosto deles porque são o modelo utilitário, o Fiat 127 do género humano: sem opcionais, mas sólidos e imprescindíveis.

Gostos dos homens quando armam mesas, remendam as paredes com betume, encontram caminhos e desencantam soluções. Quando não querem parar para perguntar onde fica a rua e, apesar de darem seis voltas à praça, acabam por encontrá-la, mantendo uma atitude condigna.

Gosto deles mesmo se fazem perguntas e, quando ela começa a responder, saem da sala.

Gosto deles quando, interrogados com um "lembras-te do que te disse ontem sobre a Ana Luísa?", com o olhar perdido no vazio rebuscam afanosamente a memória e fingem lembrar-se perfeitamente e respondem com monossílabos que não os atraiçoem, que não denunciem 
que, do segredo sobre a amiga, esqueceram tudo no preciso momento em que você lho confiou solenemente.

Gosto do homem mesmo quando tem o olhar abstraído, se fecha no silêncio, e no breve tempo que você se convence, numa escalada de pessimismo, que acabará por lhe dizer que a vossa relação chegou ao fim, eles, na realidade, elaboraram complexos pensamentos do género: 
sou bem capaz de mandar vir uma pizza; este sofá é incómodo; esperemos que demitam o treinador.

Gosto dos homens porque sem as mulheres são totalmente inábeis para a vida social, andam no mundo perdidos e desadaptados. Gosto deles porque nos fazem sentir indispensáveis.

Gosto da forma como escrevem, como falam, como cantam. Gosto deles porque realmente têm gosto pela música, pela arquitectura, pela arte.

Gosto dos homens porque sabem manter uma visão do todo, e analisar lucidamente a economia global, mas não conseguem conceber um plano estratégico que consiga conciliar pediatra, aula de dança e lanche.

Gosto deles mesmo quando, conscientes do amor da sua predilecta – que gasta horas a tentar manter um aceitável nível estético, fazer manicure, perfurmar-se e depilar-se -, vagueiam pela casa em roupas desalinhadas.

Gosto deles mesmo quando deitam as chaves de casa no caixote do lixo, confundem os dias da semana e os amigos dos filhos, trazem para casa, orgulhosos, sacos de compras cheios de objectos inúteis.

Gosto deles porque não se perdem em minúcias, sabem manter a bússola direita, e permanecer lúcidos e razoáveis e confiáveis, quando nós nos precipitamos nos redemoinhos misteriosos que trazemos dentro.

Gosto deles porque fazem o trabalho pesado por nós, e quando complicamos demasiado as coisas, sabem parecer, no momento certo, o lacónico e sábio grande chefe Boi Sentado.

Gosto dos homens porque eles são a nossa prenda do dia 8 de março.»