« A origem da crise é o euro mas não é só o euro. Portugal tem problemas próprios e são eles que o distinguem da Holanda. É preciso olhar para esses problemas. Todavia, quando partimos da ideia de que a crise se deveu aos "excessos" das pessoas ou das instituições, ao mau comportamento destes ou daqueles, não conseguimos olhar para o que mais interessa. E, em economia, o que mais interessa é a economia, e não são as "mentalidades". A economia portuguesa endividou-se porque as taxas de juro a isso a levaram. Esse é o problema. O problema não é, no essencial, que esse endividamento tenha sido mal gasto, em PPPs, auto-estradas ou "gorduras" do Estado. O problema é a dívida e apenas a dívida. Fora ela, a economia portuguesa é igual às demais da Europa - só que mais pobre.
Um primeiro exemplo: Portugal não tem auto-estradas a mais, o que tem é uma solução de um défice de ligações rodoviárias resolvido numa altura da história em que essa solução é feita por auto-estradas. E como sabemos que não são vias a mais? Simples, olhando para indicadores de dotação de capital social fixo (é assim que se chama) a nível internacional, onde se vê que Portugal compara mal com a média europeia (curiosamente ou não, compara melhor nesses indicadores do que nos de capital humano - desde há cem anos para cá, aliás).
Portugal também não tem gente a mais com casa própria e endividada. O que tem é uma solução para a habitação resolvida com juros baixos e sem intervenção do Estado. Na Europa mais avançada, todos os anos os estados promovem a construção de dezenas de milhares de habitações sociais para alugar. E o mesmo raciocínio aplica-se a muita outra coisa. Como a essa obsessão de banqueiros centrais (e marxistas) que são os bem não-transaccionáveis internacionalmente, que Portugal também não tem a mais. E como se confirma tudo isto? Olhando para comparações detalhadas da estrutura produtiva portuguesa e dos seus vizinhos europeus. Claro que a malta das finanças nem de perto nem de longe gosta dessas comparações, em que a OCDE, esse antro de "liberais gauchistes", é perita.
É óbvio que também há muito desperdício e muito dinheiro metido em bolsos impróprios, mas isso é um problema moral ou de tribunais e não um problema macroeconómico.
Mas, então, qual é o principal problema económico português? É o facto de, dentro de determinados sectores, a produção ser concentrada em cadeias de valor mais baixo. Não é que haja menos indústria e mais serviços: há é mais fábricas de motores eléctricos ou de moldes, do que fábricas de carros ou de medicamentos. Tudo isto é bocado enfadonho, eu sei, mas era necessário fazer este acrescento ao que se escreveu dois posts abaixo.
Em suma: a economia portuguesa não precisa de levar pancada, muito menos a partir do Ministério das Finanças e muito menos ainda a partir do Orçamento. Com esta ideia na mesa, tudo se torna mais fácil.»











