Jornal de Negócios

05 outubro 2012

De regresso ao básico ...

Pedro Lains, no seu blogue (Economia e História Económica):
« A origem da crise é o euro mas não é só o euro. Portugal tem problemas próprios e são eles que o distinguem da Holanda. É preciso olhar para esses problemas. Todavia, quando partimos da ideia de que a crise se deveu aos "excessos" das pessoas ou das instituições, ao mau comportamento destes ou daqueles, não conseguimos olhar para o que mais interessa. E, em economia, o que mais interessa é a economia, e não são as "mentalidades". A economia portuguesa endividou-se porque as taxas de juro a isso a levaram. Esse é o problema. O problema não é, no essencial,  que esse endividamento tenha sido mal gasto, em PPPs, auto-estradas ou "gorduras" do Estado. O problema é a dívida e apenas a dívida. Fora ela, a economia portuguesa é igual às demais da Europa - só que mais pobre.


    Um primeiro exemplo: Portugal não tem auto-estradas a mais, o que tem é uma solução de um défice de ligações rodoviárias resolvido numa altura da história em que essa solução é feita por auto-estradas. E como sabemos que não são vias a mais? Simples, olhando para indicadores de dotação de capital social fixo (é assim que se chama) a nível internacional, onde se vê que Portugal compara mal com a média europeia (curiosamente ou não, compara melhor nesses indicadores do que nos de capital humano - desde há cem anos para cá, aliás). 

Portugal também não tem gente a mais com casa própria e endividada. O que tem é uma solução para a habitação resolvida com juros baixos e sem intervenção do Estado. Na Europa mais avançada, todos os anos os estados promovem a construção de dezenas de milhares de habitações sociais para alugar. E o mesmo raciocínio aplica-se a muita outra coisa. Como a essa obsessão de banqueiros centrais (e marxistas) que são os bem não-transaccionáveis internacionalmente, que Portugal também não tem a mais. E como se confirma tudo isto? Olhando para comparações detalhadas da estrutura produtiva portuguesa e dos seus vizinhos europeus. Claro que a malta das finanças nem de perto nem de longe gosta dessas comparações, em que a OCDE, esse antro de "liberais gauchistes", é perita.

    É óbvio que também há muito desperdício e muito dinheiro metido em bolsos impróprios, mas isso é um problema moral ou de tribunais e não um problema macroeconómico.

    Mas, então, qual é o principal problema económico português? É o facto de, dentro de determinados sectores, a produção ser concentrada em cadeias de valor mais baixo. Não é que haja menos indústria e mais serviços: há é mais fábricas de motores eléctricos ou de moldes, do que fábricas de carros ou de medicamentos. Tudo isto é bocado enfadonho, eu sei, mas era necessário fazer este acrescento ao que se escreveu dois posts abaixo. 

    Em suma: a economia portuguesa não precisa de levar pancada, muito menos a partir do Ministério das Finanças e muito menos ainda a partir do Orçamento. Com esta ideia na mesa, tudo se torna mais fácil.»

Os senadores

(...) «Portugal não chegou onde chegou por ser uma barca que navegou sem piloto: houve pilotos, houve responsáveis, houve muita gente que contribuiu, por acção ou omissão, para chegarmos aos intoleráveis 88 mil milhões de despesa pública (e 7,5 mil milhões de despesas anuais com os juros da dívida). Muita dessa gente tem hoje cabelos brancos e continua a achar que devia estar no Governo, como se esse fosse um qualquer direito divino que lhe assistisse. Até o vai dizer a programas de televisão.

Mas para pior já basta assim. Para esbulho fiscal já chega o anunciado, não precisamos ainda de mais impostos para pagar ainda menos cortes nas despesas. Por isso só desejo que a providência nos livre de quem nos trouxe até aqui e nem isso é capaz de admitir.»
(José Manuel Fernandes, Público, 5 de Outubro)

03 outubro 2012

dress code ou sentido prático

Em www.educaremportugues.com, por 

Bárbara Wong, Jornalista


À minha frente, duas estagiárias envergam os calções da moda. Curtos e de ganga. Acham que as vou mandar ao Palácio de Belém, à Assembleia da República, a um ministério, seja onde for? Não. 
Uma delas responde: "Tá-se?", "na boa" e despede-se com um "vou bazar!" Tremo só de pensar que fale assim com as pessoas que deve contactar. É o nome do jornal que põe em causa.
Um colega que a ouve comenta: "A geração Morangos com Açúcar chegou às redacções!"
Chegou com 20/21 anos, graças à Declaração de Bolonha, com três anos de formação superior e sem a mínima noção do saber estar num local de trabalho.


Mas a culpa não é delas. 
- É dos pais
Eu devo ter sido a última rapariga do planeta a usar combinações e saiotes, obrigada pela minha avó e pela minha mãe, a vesti-los por debaixo das saias mais transparentes. Gozada à grande pelas colegas que nunca tinham visto aquelas peças de roupa interior. Obrigada a despi-las mal saía a porta de casa e a guardá-las na mochila. Não peço que as usem (já nem devem existir), mas peço que os pais as ensinem a vestir, tenham uma palavra a dizer quando as meninas vão às compras. "O umbigo é bonito para se ver na praia, não na escola, muito menos no local de trabalho."

- É da escola
As meninas/os meninos não têm de estar na sala de aula com o rabo de fora, com a barriga à mostra, com o boné na cabeça, com os chinelos nos pés. Custa perder um bocadinho da aula a mandá-los vestir a bata de Ciências? Custa, mas pode ser que aprendam... Quem sabe, a funcionária da portaria pode fazer essa triagem antes que os alunos entrem na escola.

- É da faculdade
O ensino superior espera que os meninos cheguem lá bem formados e acredita que estes têm autonomia e são responsáveis, que são adultos. Mas não são. São uns miúdos de calções, literalmente.
Alguém - pode ser o professor responsável pelo estágio, se faz favor - tem de explicar como se deve estar num local de trabalho já que os pais e os professores do básico e do secundário não ensinaram. 


Vá lá, alguém faça o seu trabalho para não ser eu, aqui e agora a explicar que estão numa empresa onde não vão servir umas cervejas, mas exercer funções de jornalistas estagiárias.
Ainda bem que chegou o Outono!
BW

Nota: Nem todos chegam aqui assim. Mas, volta e meia, aparecem umas aves raras.»

01 outubro 2012

fazer de conta (sem fazer as contas ...)

(...) «Este Governo não teve coragem, por exemplo, de fazer uma verdadeira reforma administrativa que reduzisse efectivamente o número de concelhos. 

No século XIX, em 1836 o Governo de então, com muito menos meios, foi mais audaz, ambicioso e eficaz, realizando uma verdadeira reforma administrativa que implicou a redução do número de concelhos – de 800 passaram para 385 - numa época em que as acessibilidades eram muito inferiores às actuais, os automóveis ainda não existiam, e Portugal rural era muito mais povoado. 

O actual Governo limitou-se a encerrar algumas freguesias e não teve coragem para enfrentar o lobby dos autarcas, não ousando tocar nas suas nomenklaturas locais, perante as quais cedeu.

Em relação às fundações, também as nomenklaturas partidárias e dos amigos, familiares e enteados falaram mais alto e a montanha pariu um rato: eliminaram-se apenas três ou quatro fundações, quando simplesmente se impunha o encerramento de todas as fundações públicas ineficazes e sorvedoras de dinheiros públicos e a cessação de transferências do Estado para as fundações privadas.

Enfim, tudo isto nos mostra que esta gente não vai reformar coisa nenhuma, vai antes saquear o que puder.» (...)

26 setembro 2012

A liberdade de expressão justifica tudo?

«O cenário tem-se repetido periodicamente nos últimos anos.

Num país ocidental, alguém faz por conta própria um subproduto ofensivo -neste caso um vídeo sobre Maomé-; este subproduto chega ao YouTube e obtém uma difusão mundial suscitada pelos protestos que gera; nos países muçulmanos acontecem manifestações e grupos interessados agitam as massas populares a protestarem violentamente contra os países ocidentais atacando o que têm ao seu alcance, embaixadas ou empresas.


Protestos em Londres, frente à embaixada dos EUA
Os governos ocidentais condenam o subproduto e asseguram que nada tem a ver com eles, mas que tão-pouco podem proibí-lo para respeitar a liberdade de expressão; os países islâmicos pedem que seja retirado e se condene o ofensor, reclamando uma legislação internacional contra a blasfémia. No final, há mais alguns mortos e alguns amigos a menos.


Num mundo globalizado, no Ocidente custa a entender que outras culturas não vivem na era da irreverência. O conflito entre a liberdade de expressão e a liberdade religiosa, foi analisado por Rafael Palomino em El Derecho y la protección de los sentimientos religiosos.

Outras vezes, os protestos -não violentos- devem-se a produtos que invocam a liberdade artística para atacar as crenças cristãs: La libertad de creación artística y el respeto a las creencias.

O debate sobre os limites entre a liberdade de expressão e a incitação ao ódio a comunidades crentes discute-se em diversos países, como explica José María Sánchez--Galera em Cuando la libertad de expresión hiere susceptibilidades.» (...)

Um egípcio disse a Kirkpatrick: "Quando se ataca alguém, só se causa dano a uma única pessoa. Mas quando se insulta uma fé dessa maneira, insulta-se um país por inteiro". (...)

19 setembro 2012

O moralismo político

JPP, no Abrupto:

(...) «No meio disto tudo, Passos Coelho fornece outro produto, mais à sua dimensão de executante, mas que também transporta alguma desta raiva. É quando Passos Coelho diz que "não estamos a exigir de mais", como se fosse pouco o que se está a "exigir" e ainda não levaram em cima com a dose toda. 

É quando avança com mais uma comparação moral que mostra o imaginário onde estamos metidos; não podemos correr o risco de nos cruzar com os nossos credores "nos bons restaurantes e boas lojas". É mesmo isso que os portugueses andaram a fazer nos últimos anos, a comprar malas Vuitton e sapatos Jimmy Choo! 

Bla bla blaPassos dizia que as pessoas "simples" percebiam isto, porque de facto para ele as coisas são assim simples. Então como é que nos devemos "cruzar com os nossos credores"? De alpergatas, vestidos de chita, trabalhando dez horas por um salário de miséria? É que não é preciso andar muito tempo para trás para ter sido assim. Ainda há quem se lembre. Deve ser por isso que é preciso "ajustar".

(...)  Em alturas de mudança social profunda, neste caso associada à destruição da classe média e ao empobrecimento generalizado, quem não percebe isto, não percebe nada.» (...)

13 setembro 2012

"Ordenhar vacas magras como se fossem leiteiras"

(...) «Não é a derrapagem do défice que mata a união que faz deste um território, um país. É a cegueira das medidas para corrigi-lo. É a indignidade. O desdém. A insensibilidade. Será que não percebem que o pacote de austeridade agora anunciado mata algo mais que a economia, que as finanças, que os mercados - mata a força para levantar, estudar, trabalhar, pagar impostos, para constituir uma sociedade?»

(...) «Alternativas? Havia. Ter começado a reduzir as "gorduras" que o Governo anunciou ontem que vai começar a estudar para cortar em 2014 (!). Mesmo uma repetição do imposto extraordinário de IRS que levasse meio subsídio de Natal, tirando menos dinheiro aos trabalhadores e gerando mais receita ao Estado, seria mais aceitável. O aumento da TSU é uma provocação. É ordenhar vacas magras como se fossem leiteiras.»


(...) «Não foi a austeridade que nos falhou, foi a política que levou ao corte de salários transferidos para as empresas, foi a política fraca, foi a política cega, foi a política de Passos Coelho, Gaspar e Borges, foi a política que não é política.

Esta guerra não é para perder. Assim ela será perdida. Não há mais sangue para derramar. E onde havia soldados já só estão as espadas.»
(Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios)

06 setembro 2012

Verdades inconvenientes

(...) «À cultura da guerra civil só interessa transformar os adversários em demónios "fascistas", suspeitos, obrigados a autojustificarem-se no altar dos censores morais. (...) É a caricatura de um inimigo imaginário que estes órfãos da guerra civil perseguem. 

A democracia tem-nos providenciado uma aprendizagem das regras do debate democrático. Mas vivemos tempos perigosos. Se este sectarismo violento e falsificador vencesse na sociedade portuguesa, estaríamos a retroceder em muito do que construímos. Ficaríamos todos vulneráveis perante quem conseguisse fabricar uma "verdade ideológica" independentemente dos factos e da verdade» (...)

(Pedro Lomba, no Publico, de 4 de Setembro de 2012)

27 agosto 2012

cinco anos sem aprender nada

«Cinco anos depois, nenhum dos problemas foi resolvido, enquanto as consequências económicas e sociais da crise continuam a agravar-se. Entretanto, a história de como aqui chegámos vai sendo reescrita para mostrar que a culpa foi nossa.

A crise de 2007 foi tornada possível pelo níveis absurdos de expansão dos balanços e endividamento a que chegaram algumas das principais instituições financeiras. Esses níveis de alavancagem não serviram a economia e é discutível que tenham servido os próprios bancos. Beneficiaram, isso sim, os acionistas, que puderam aumentar o seu retorno por ação - diminuindo o capital comprometido.» (...)

(... ) «É estranho que tantos economistas que passam a vida a falar dos incentivos, considerem que é uma boa ideia salvar acionistas, sem condições nem penalizações. Essa ideia não a foram certamente buscar a nenhuma teoria económica que eu conheça.»

(José Gusmão, no Diário Económico)

22 agosto 2012

Direito de recusa de paternidade

(...) ««A lei portuguesa devia reconhecer aos homens o direito de recusar a paternidade de um filho nascido contra a sua vontade. A tese está contida na investigação A igualdade na decisão de procriar, defendida por Jorge Martins Ribeiro, no âmbito do mestrado em Direitos Humanos na Universidade do Minho.» 

«Na óptica do investigador, é uma questão de igualdade. "Do mesmo modo que a mulher tem o direito legalmente reconhecido de abortar ou não abortar, perante uma gravidez não planeada, o homem deve poder decidir se quer ou não ser pai", sustenta.» (...)

Coisas de meninas ...

As Nações Unidas calculam que tenham desaparecido, até hoje, cerca de 200 milhões de mulheres através de abandono, morte ou aborto seletivo, apenas pelo facto de serem mulheres. Acontece sobretudo na China e na Índia, mas a prática tem-se estendido aos países ocidentais, no norte da Europa, Bélgica, Holanda, Reino-Unido, Canadá, Estados Unidos ...
Documentário aqui.

04 agosto 2012

A política e a realidade

Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios

(...) «solução evoluiu para uma intervenção em Espanha e Itália (é impressionante como num repente se normalizou falar de uma intervenção em Itália…) diferente da portuguesa. Não há dinheiro para retirar estes dois países do mercado, colocando-os num ecossistema controlado. O plano passa por fazer uma gestão quase diária da dívida destes países, com um pulmão nos mercados e outro em respiração assistida. E mesmo assim, diz o BCE, os empréstimos serão a curto prazo - para manter os países na trela. Para obrigá-los à austeridade e às reformas estruturais. Para obrigarem os mediterrâneos a serem como os bárbaros.

Algumas considerações que não nos cansaremos de repetir: a crise não é de nações, não é portuguesa nem espanhola, é do euro; a austeridade não tem alternativa europeia, mas não está a resultar, porque desemprega, porque mata a economia, destrói a sociedade, tritura riqueza em impostos, porque nisso torna a própria dívida insustentável; as reformas estruturais são apesar disso importantes, para libertar a economia dos interesses que a capturam, para abri-la à concorrência.

Não há nenhuma resposta instantânea para a crise. Nenhuma cimeira, nenhum BCE, nenhum alemão tem poder para desligar num átimo a máquina da destruição. O que tem de ser feito é moroso e doloroso. Mas escusa de ser desvairado. Precisa de sentido. Não está a ter. Tem de ter.» (...)

25 julho 2012

África: promessas quebradas

Livro do médico e investigador da SIDA, Edward C. Green, Broken Promises explica com dados e números porque é que a epidemia de HIV / SIDA continua a grassar em África, apesar dos orçamentos milionários das campanhas de ajuda ...
Um resumo aqui, a propósito da conferência de Melinda Gates, em Londres.

It´s the economics :-(

13 julho 2012

inverno demográfico

«Portugal está em via de ser o 2º país mais envelhecido do mundo
(...)
O Estado considera as crianças como cidadãos mas, muitas vezes, ignora a sua existência ou trata-as como uma percentagem variável.

Vejamos o que se passa em vários domínios:

- Taxa do IRS – cada filho vale zero;
- Deduções personalizantes do IRS – cada filho vale cerca de 75%;
- Deduções de educação, saúde,…(entre os 3º e 6º escalão do IRS) – cada filho vale 10%;
- Abono de família – cada filho vale meia pessoa – 50%;
- Taxas moderadoras – cada filho vale 0;
- Passe Social Mais ‐ cada filho vale 25%.

Estas situações revestem‐se de uma enorme injustiça e acarretam ao país graves consequências, pois comprometem o crescimento económico e a coesão social, nomeadamente, a sustentabilidade da segurança social e do sistema de saúde.» (...)